Entendendo as cotas com física básica

 

        Recentemente em um debate de facebook, escrevi um  comentário/texto explicando como eu entendia as cotas para um público que, em sua maioria, eram estudantes de exatas. Há um tempo, durante a leitura de um texto muito interessante sobre cotas do William Douglas[1], fui montando sem querer uma analogia baseada em física. Nessa discussão, acabei usando a tal analogia e vi que ficava boa para explicar para outras pessoas. Dessa forma, melhorei e organizei a ideia para explicar para o pessoal das exatas( e também para quem não é da área) como eu julgo o sistemas de cotas. Como está na descrição do blog, eu sou um cara com mente “exata” tentando entender assuntos não tão exatos assim. Não tenho nenhum apego à vaidade para manter minhas visões de mundo e nem tenho problema algum em trocar de opinião se alguém me fornecer argumentos que eu julgue mais sólidos que o meu. Portanto, se você não concorda comigo, por favor, me faça enxergar da sua forma expondo seus pensamentos nos comentários abaixo. Ahhh claro… se é que isso faça alguma diferença, não sou negro.

 

        Antes de começar eu vou apresentar o conceito de generalização. Este é um conceito muito importante para entender certas coisas. O nome técnico disso, se quiséssemos ver aos olhos da matemática, seria distribuição gaussiana.  Imagina que estamos mapeando a altura das pessoas aqui no Brasil. Nesse gráfico abaixo, no eixo horizontal( das abcissas se preferir), você pode ver as alturas das pessoas crescendo da esquerda para a direita. No eixo vertical, vemos a porcentagem de pessoas que possuem aquela altua. Na linha pontilhada ao centro do gráfico vemos que aprox. 11% da população tem 1,65 de altura.

 

 

        Você consegue perceber que o gráfico faz um desenho como se fosse um quebra-molas, ou lombada, conforme seja chamado na sua região? Esse desenho é percebido na maioria dos casos, pois em geral, a maior quantidade de observações se situa no meio do gráfico. Funciona assim com a altura das pessoas, com os números de sapato, com a velocidade dos carros na rua,  com a temperatura que as pessoas julgam ideal no ar condicionado e etc…  Por conta disso, se formos projetar o espaço interno de um carro, vamos considerar qual tamanho para usar como padrão nos bancos? Você concorda comigo que seria o tamanho médio, o tamanho da maioria das pessoas? Obviamente, haverá alguém que é menor que o espaço do projeto, e alguém que é mais alto e poderá ficar desconfortável. Mas se é necessário projetar um banco genérico usa-se a característica da maioria das pessoas como parâmetro. O nome disso é generalização. Por isso, as políticas, as considerações para estimativas socias e etc. são baseadas na maioria dos casos. Não vale trazermos para uma discussão de qual carro corre mais o caso de um fusca turbinado que corria mais que um carro de fórmula 1 batido e com isso defender que os fuscas correm mais que carros de fórmula 1. Casos isolados não servem como exemplo geral, lembre bem disso.

 

Todos nascem iguais…

    
         Primeiro de tudo, vamos montar o cenário incial do nosso problema, pois é assim que começa toda questão física. Os corpos são esferas, não há atrito, o fio é inextensível e etc. Como nessa discussão estamos dissertando sobre cotas para negros no Brasil vamos considerar que no início, em 1500, existiam apenas brancos e negros. Nesta situação, todos nascem iguais, com os mesmos direitos, mesmos deveres, assim como teoricamente funciona hoje. Você pode nascer pobre batalhar e morrer rico e pode nascer rico falir e morrer pobre. Muitos diriam que essa é a sociedade atual, hoje em 2015. Seria sim… se não houvesse um fator importantíssimo que afeta tudo isso…

 

Hereditariedade

 

   
         Nossa própria lei garante que o filho herda os bens dos pais. Portanto, por mais que seja possível o Sílvio Santos nascer pobre e ficar riquíssimo como fruto do trabalho, é incomparavelmente mais fácil para o filho de uma família rica desfrutar das oportunidades trazidas pelo dinheiro do que foi para o homem do baú. Ainda que nossa lei não permitisse hereditariedade, só o fato de viver em uma família que possui grana facilita bastante o preparo da criança para conseguir uma posição que a faça manter e aumentar sua riqueza. Não estou especulando filosoficamente aqui, estamos falando dos cursos de inglês, francês, das viagens para fora, do intercâmbio, dos professores particulares, coisas bem óbvias. Tem também as coisas mais sutis e nem por isso menos consideráveis: ter um pai que lhe explique como funciona o vestibular, como a carreira dele o fez ter a boa condição que ele lhe fornece, fale da importância de falar 1 ou 2 idiomas e etc. O garoto que está vendendo bala no sinal não sabe o que é um vestibular, não sabe o que um administrador ou economista faz. As profissões que ele conhece são engraxate, professor, empregada, policial e no máximo assistente social. Novamente, não são devaneios utópicos aqui. Você sabe o que é um analista de compliance? E um engenheiro de lançamento de linha? Não, não é? É porque isso está fora do teu contexto. A diferença é que o contexto do garoto da bala é bem mais restrito que o meu, que o seu. Portanto, esse garoto nem sabe o que são cotas, na verdade ele não sabe o que é vestibular, ele te assalta na porta da UERJ mas só sabe que o pessoal estuda alguma coisa lá dentro. Ainda temos aquele problema do silêncio na biblioteca. Tirando um ou outro que estuda com fones de ouvido, em geral o silêncio é necessário para a concentração, ter as horas de estudo interrompida vez ou outra por tiroteios não ajuda muito. Ainda que não haja tiroteio, mas morar em um cômodo só, tentando estudar enquanto sua mãe assiste TV, seu irmão chora e o vizinho do lado ouve rádio alto geralmente não facilita a absorção da matéria. Por outro lado, ter seu próprio quarto, seus professores particulares, livros novos me faz suspeitar que torne o aprendizado mas efetivo.

 

         Então, voltando à física… Se teoricamente no t=0( ano 1500), no início, todo mundo nasce igual, sem ter nada. Existe hereditariedade, ou seja, é muuuuuuuito mais fácil ter grana se ela vem do seu pai. Então, pega determinado grupo com mais melanina na pele, escraviza por quase 400 anos a partir do t=0. Passado esse tempo fala assim: “Agora vocês estão livres! Abraço meu querido. É todo mundo igual”. Se não houvesse hereditariedade estaria tranquilo. E ela não diz apenas que você terá grana, mas vai ter estudo, vai ter informação. Enfim… se não fosse esse fator, o problema estaria resolvido. Mas como ele existe, o mundo acaba não sendo tão simples como “todos nascem iguais a partir de agora”. Caso ainda haja alguma dúvida sobre a igualdade nos nascimentos, de forma no mínimo irônica, lhe proponho que explique isso para os pais da criança que morreu por atraso no atendimento na UPA e também para aqueles cujo filho nasceu no Barra D’or.

         Trocando em miúdos de forma Newtoniana… Você consegue entender que se no t=0 tem dois carrinhos no s=0( na posição do início da corrida). Então você segura um carro por 400 segundos e deixa o outro andando em velocidade constante. Depois desses 400 segundos você solta o carrinho que tava parado na mesma velocidade que o outro. Você acha mesmo que em algum momento esses carrinhos vão estar lado a lado? Se você acha… proponho que feche essa página e abra um livro de física. Uma forma de resolver isso é acelerar um pouco o carrinho retardatário por um tempo e então desacelerar quando ele se aproximar do outro. O nome da aceleração, caro leitor, é cotas.

 

imagem
    
“Mas as cotas são paleativo.. porque tem que consertar a educação de base!”

 

        Uma vez vi um texto que dizia que um dos principais problemas dos brasileiros é nunca resolver um problema porque sempre tem outro que se julga mais importante[2]. E de fato é isso aí…. Vamos ser realistas, NÃO IRÃO CONSERTAR a educação de base. Ponto. Você conhece tanto os políticos daqui quanto eu. Do jeito que anda, a coisa não será consertada. Portanto, ou faz cotas ou não faz nada. Condicionar a cota( que é uma política palpável, tangível, acessível) à realização de uma reforma sueca na educação brasileira( que é, pelo menos agora, impossível) é ingenuidade, quando não é falta de visão ou no pior dos casos, estratégia de anulação. Enfim, ou você dá as cotas para “reparar” a discrepância cronológica da galera… ou exige que cada negro brasileiro seja um Silvio Santos, porque teoricamente o mundo é justo e hereditariedade é um conceito que se resume exclusivamente à genética.

Agora eu te pergunto: Você é o melhor em tudo que você pode ser hoje? Você se esforçou pegando livros no lixo e estudando nos bancos de praça? Não? Então porque o garoto de rua tem que fazer isso para chegar no mesmo lugar que você está?

        Por isso, não vale usar o caso do zezinho que lutou muito e venceu na vida. Obviamente não tem como atingir uma igualdade absoluta, nem numa tribo é assim. Mas não é por isso que vamos cruzar os braços e deixar por isso mesmo quando existe uma desigualdade tão óbvia na nossa frente. O conceito de igualdade é complicado, confesso que não sei muito bem como definir. Mas vamos pensar o seguinte: Se igualdade é fornecer exatamente a mesma coisa para todo mundo, eu posso fornecer escadas na entrada de um prédio para cadeirantes porque colocar rampas é tratá-los diferente? De fato ele não tem necessidades diferentes? Como o William Douglas disse no seu texto, as cotas raciais não seriam como cotas para deficientes econômicos?

“E por que as cotas são para os negros e não para os pobres? Pois existem vários brancos pobres também!” O nome disso é cotas para estudantes de escolas públicas. Em geral, assume-se que se não houve como o estudante arcar os custos de uma educação particular, ele se encaixa na classe de pobre. “Isso é assumir a falência da educação pública de nível fundamental e médio!” É sim… eu também enxergo assim. Mas novamente, se condicionar cotas à reorganização da educação nacional, não haverá nada.

 Mas se na Constituição todo mundo é igual, por que os negros tem essas vantagens?
   
        O problema é que a Constituição de hoje foi feita em 1988, mas a sociedade ainda tem reflexos da escravidão que acabou em 1888. Nós que gostamos de números…. um século não foi suficiente para suprimir a cultura, piadas, apelidos, olhar feio e etc…  Sociologia não é ciência exata, portanto, não é recomendado olhar as coisas como equação. Existem nuances e detalhes que não são óbvios como uma linha de código. A partir do momento que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea o mundo não passou magicamente a olhar os negros de igual para igual. Tanto é que até hoje você encontra pessoas preconceituosas por aí. Se o resultado do preconceito fosse só desconforto, ainda que errado, seria de certa forma( estou falando isso com muito cuidado…) relevável. O problema é que a falta de oportunidades pode expor à criminalidade, por exemplo. Quando essa falta de oportunidades atinge especificamente uma parcela limitada da população, por questões históricas, há um grave problema aí. Se tem gente que até hoje acredita que comer manga com leite mata, história que tem origem na época da escravidão, porque não teria quem ainda acredita em preconceito?

 

Mas as cotas vão oferecer vantagens injustas para os negros no futuro!
    
         Por isso que as cotas devem ser temporárias. Quando os cotistas de agora conseguirem se estabelecer num emprego bom, botarem as crianças nas escolas particulares, corta-se o cordão umbilical. Assim eu penso, o que os políticos pensam eu não sei. Mas ainda que eles pensem diferente, é só trocar os políticos depois. O ganho que as cotas trazem é muito mais importante do que um medo baseado na previsão de uma década à frente. Não vejo como esse medo se posicionar como prioridade nesse contexto. Portanto, a ideia é fazer o carrinho que estava parado alcançar o outro e deixá-los andando lado a lado, lembra? A física explica.

 

 

 

Luciano Netto de Lima

2ª parte do Engecast sobre o Mercado de Engenharia e novo engecast sobre Engenharia de Produção

Olá pessoal!

 

Saíram dois novos engecasts. A parte 2 da discussão sobre o Mercado de engenharia que fizemos e também um engecast abordando a Engenharia de Produção, que anda despertando o interesse de muita gente. Como já havia dito antes, recomendo bastante o blog e o conteúdo do amigo Rodolfo Pignaton. Mandem os feedbacks para ele porque esse é o combustível do cara. É só clicar nas imagens que vocês serão encaminhados direto para o os podcasts ou ir direto para:

http://blog.engecast.com.br/

Neste episódio contamos ainda com a presença do um time:

O Rodoflo Pignaton, futuro Engenheiro Civil.

O  Bruno Thomaz, Engenheiro Eletricista.

O Eduardo Bortolotte, Engenheiro da Computação

E o Felipe Trindade, Engenheiro Mecânico

 

 

engecast-009_vitrineB

 

 

engecast_008_Falta_de_Engenheiros_2_vitrine

 

Abraços!

 

 

 

EngeCast – Discussão sobre o mercado da Engenharia.

Olá pessoal,

tive a honra de ser convidado a participar do EngeCast – O seu podcast de Engenharia, para discutir sobre o mercado de engenharia atual. A iniciativa é muito legal e parte do Rodolfo Pignaton, que está cursando Engenharia Civil.  O blog do Engecast divulga notícias da atualidade sobre engenharia, além manter episódios com frequência mensal, que futuramente vai aumentar, falando sobre os assuntos da nossa área. Para quem não sabe o que é podcast, é um  arquivo de áudio onde os participantes conversam sobre um tema qualquer. Basta acessar o site e ouvir ou baixar e ouvir depois no celular, mp3, computador e etc.

Recomendo o blog a todos! Dêem uma força lá porque além de ser raro vermos sites direcionados à nossa área, a qualidade e dedicação do Rodolfo está de parabéns!

Deixem comentários lá dizendo tanto o que acham das conclusões que chegamos. Além de é claro, dizer o que acharam do podcast e como pode ser melhorado.

Neste episódio contamos ainda com a presença de um time ímpar de outros engenheiros:

O  Bruno Thomaz, Engenheiro Eletricista.

O Eduardo Bortolotte, Engenheiro da Computação

E o Felipe Trindade, Engenheiro Mecânico

Engecast

http://blog.engecast.com.br/2015/04/01/engecast-007-falta-de-engenheiros-parte-1/

 

Grande abraço!

Por que a engenharia no Brasil é assim?

A origem de tudo…

Muitas vezes eu me pergunto o porquê da engenharia no Brasil não dar tão certo se afirmam que a engenharia aquece com o desenvolvimento e dizem por aí que em pouco tempo seremos a terceira maior economia do mundo. Então, conversando com professores, colegas de trabalho, profissionais e lendo notícias cheguei ao entendimento que vou expor no texto. Como disse, sou da área de engenharia, não sou sociólogo, posso estar errado, mas quero compartilhar como entendi isso. O que acho que evoluiu bastante desde que eu comecei a me fazer esta pergunta.

Não é preciso mais de uma frase para concordamos com a seguinte afirmação: No Brasil, a política precede à razão.
E nós, infelizmente, escolhemos a segunda prioridade dessa frase. Portanto, será muito natural se ao longo da colheita de nossos frutos da engenharia, nos sentirmos frustrados por termos feito a escolha errada. Vamos entender melhor isso tudo…

Quando escrevi o primeiro texto – Entendendo a falácia da  falta de engenheiros no mercado – já esperava que alguns colegas da engenharia civil me desmentissem e contassem que na verdade, a engenharia está bombando. A engenharia civil, como diz um amigo da área, foi a mãe das engenharias. Na verdade, inicialmente existiam dois ramos somente: a engenharia militar, para aplicações bélicas naturalmente, e para outras aplicações, a engenharia civil. Dentro desta se englobavam todas as áreas não militares. Com o passar do tempo a civil foi se ramificando tanto que foi necessário especificar outros termos mais específicos como mecânica, elétrica e etc. A engenharia de construção, por ter sido a mãe de todas as outras, herdou sua denominação primordial. Assim, hoje temos o termo engenharia civil como sinônimo de construção. Portanto, tenho o maior respeito e consideração pela área, e até pretendo cursá-la no futuro por admiração. E assim, peço aos meus futuros colegas de curso que entendam a afirmação/constatação que farei a seguir, sem preconceito: A engenharia civil, no Brasil atual, não depende de desenvolvimento de tecnologia.

Isso influencia e muito no porquê desta ser a única engenharia que dá certo nos nossos solos. A nossa engenharia civil não sofre concorrência porque nossos governantes não a permitem. Existem dois motivos para o sucesso dessa engenharia aqui: O primeiro já foi falado, a falta de tecnologia. O segundo motivo, é o fato da sua forma de execução e isso, também decorre da falta de desenvolvimento tecnológico.

Fica uma ressalva para a área de petróleo e gás, pois é uma herança de um investimento antigo de Vargas.  Ou seja, não é preciso investir durante o período sem retorno, pois hoje a Petrobras já dá lucro. Assim, ela pode investir em pesquisa visando aumentar os rendimentos. Sem contar o fato de ser capital misto, o que não permite interferência direta da baixa política. Pelo menos é o que se tem tentando fazer lá dentro, apesar de algumas matérias recentes acusando a interferência partidária  nos rumos da companhia. ¹

A engenharia quaternária

A engenharia da computação, por exemplo, se quiser fazer diferença no mercado precisará desenvolver chips novos, ou inovar em tecnologia dos semicondutores, talvez até comece pesquisas em computação quântica. Quanto tempo isso dura? Coloque aí uns 10 anos para ter a primeira patente gerando lucro. Mais 5 desenvolvendo o produto, para depois criar as empresas de venda de tais produtos. Enfim, 15 anos para começar a ser rentável. Lembra sobre a política e a razão? Pois é… um político eleito, nunca poderá inaugurar a fábrica de superprocessadores nacionais a tempo de se reeleger. Quinze anos é muita coisa, além do investimento em educação e qualificação ser necessário e nem precisar tanto de investimento pesado inicial, o que também não agrada nossos representantes do povo.

A função da engenharia é criar soluções praticáveis baseadas no conhecimentos das ciências, aplicá-las, é consequência. Não que não seja importante aplicá-las, senão seria pesquisa pura, teórica; mas a função principal da engenharia é solucionar coisas que até o momento não tinham respostas. O físico estuda toda a natureza, entende as leis de Newton, entende a relação entre polias e etc. Sendo que ele usou das equações que são estudadas pelos matemáticos. O engenheiro, estuda um pouco de física, um pouco de matemática, estuda como montar engrenagens, qual motor usar e então resolve os problemas da sociedade. Seja otimizando a produção de petróleo ou garantindo a qualidade das bebidas em uma cervejaria.

A base de qualquer tecnologia é a inovação, é a corrida. Tanto é, que os maiores desenvolvimentos científicos ocorrem durante as corridas espaciais, as guerras, quando a tecnologia significa a diferença entre a vida e a morte.

No Brasil, a engenharia tem 4 características interessantíssimas para um candidato, veja bem… No tempo de mandato de um governador, por exemplo, 4 anos, a engenharia civil não ficará obsoleta pela tecnologia. Portanto, é só aplicar o que já se conhece, não precisa investimento de longo prazo. Qualquer obra pode ser realizada em 4 anos. Pelo menos é o como acontece no Brasil, vez ou outra um buraco de metrô ou prédio desaba, mas no geral 4 anos é suficiente para inaugurar, pelo menos é o que vemos nos jornais. Ainda tem outro fator, segundo a ISO 9001, o desvio de verba pública não pode ultrapassar 50% do investimento. Como qualquer retoque em um estádio custa cifras de bilhões de reais, a taxa de retorno imediato do “investimento” para um político mal-intencionado é muito mais atrativo que descobrir a cura com células tronco. A pesquisa de ponta em tecnologia precisa de um capital inicial baixo para só no meio investir pesado. Nada que seja possível fazer em 4 anos. E no final, o resultado é bastante evidente quando se tem uma nova ponte e algumas fotos já mostram as realizações feitas. Assim, olha bem o que a engenharia civil pode oferecer ao mau político: alto desvio de dinheiro, curto prazo, baixo risco, impacto visual e ainda uma reeleição. Ou você acha que o que faz os maus candidatos mendigarem seus votos são os salários que recebem? Por que temos tantos empresários se candidatando para receberem menos que um gerente de suas próprias empresas? Porque o desvio com um obra pública rende 10 vezes mais o que ele ganha em 1 ano com a empresa. Os altos salários que eles tem é apenas porque eles se sentiram na obrigação de roubar um pouco mais já que a população insistia em não fazer nada mesmo… as pessoas iriam até falar que eles não trabalham se não criassem essas leis aumento os próprios salários. Mas vamos parar de falar de política porque esse não foi o propósito do texto. Porém, foi necessário explicar este ponto: o interessante para um corrupto é desviar a imensidão de dinheiro arrecadada. Mas como se arrecada mesmo? Ahh claro… impostos.

Quanto mais imposto…. mais desvio. Sempre seguindo a ISO 9001!

Nos comentários do texto anterior, citaram algo que eu esqueci de abordar: O custo de manter uma empresa no país. Temos algumas curiosidades aqui, como por exemplo: a empresa deve pagar o INSS, para o funcionário ter direito ao atendimento médico, mas precisa pagar um plano de saúde também, para o funcionário ter atendimento médico. O empresário, possui um carro, e portanto, paga o IPVA para ser usado para manutenção das vias, mas também tem que pagar o vale-transporte do funcionário, porque a passagem é cara, pois o funcionário paga a barca porque não pode usar a ponte engarrafada e tem que chegar cedo. A empresa paga a previdência social, mas também contribui com uma porcentagem para pagar a previdência, mas privada. A empresa paga imposto para a polícia defender seus bens, mas precisa pagar uma empresa de segurança para defender, os seus bens.

No Brasil, se gasta 4 meses do ano para resolver toda a papelada de recolhimento de imposto. Nos outros países, a média é de uma semana. No Brasil, a energia elétrica custa o dobro do valor de outros países. No Brasil, todo o transporte, de pessoas e carga, é realizado por rodovias. Em todo mundo não se usa essa alternativa porque sabe-se que é mais cara. Pelas rodovias se gasta muito com 2 itens: a primeira é a manutenção automotiva, e a segunda, curiosamente estimula a primeira, a manutenção das rodovias. Elas custam caro porque são obras, mas lembre que as licitações suspeitas resultam na engenharia civi… ahh deixa para lá. ³

Portanto, o gasto duplicado dos serviços básicos – imposto e uso de uma empresa privada – é outro fato que dificulta que aquele motor usado na indústria, seja desenvolvido aqui em solo nacional, por engenheiros mecânicos, elétricos e químicos brasileiros. Por um preço mais barato e bem mais adaptado às nossas necessidades.

Fazer aqui demora mais que trazer de lá…

Para construir uma fábrica aqui o primeiro item é infra-estrutura e aqui que o brasil peca e muito. Nossa energia é cara, nossa logística é sofrível pois é baseada em rodovias, os impostos e os custos secundários com a mão-de-obra( transporte, alimentação e etc…) são caríssimos pela própria realidade de preços surreais do país e por final, a política não é lá muito estratégica e bem estruturada. Não é incomum a prevalência de apadrinhamentos políticos em vez de redução de custos ou inteligência estratégica quando as iniciativas tem qualquer distante relação com a mão do governo. Sem contar por toda burocracia de prestação de contas das empresas, atrasos no trâmite de documentos e etc. Outro ponto que também conta é a vantagem da aglomeração industrial, ou desvantagem, se pensarmos dentro daqui. Se não há uma boa indústria de parafusos porque preferiram construir mais uma rodovia, como vou instalar uma fábrica de motores? E sem motores, como farei automóveis? Por isso temos montadoras de automóveis e não fábricas. Para fechar com chave de ouro, importação aqui é taxado em quase 60% de imposto, mesmo em produtos sem equivalência nacional. Sendo assim, e ainda lembrando que não é possível fundar empresas e gerar lucro em 4 anos e ainda que o imposto é pago à vista, fica fácil perceber porque importar é a melhor opção e a mais famosa escolha tomada. Assim, paga-se imposto para forçar a empresa a se nacionalizar, mas impede-se sua nacionalização por todas as outras frentes de atuação. No final, nós pagamos 5 vezes o valor pelos produtos sem nenhuma perspectiva de mudar isso.

Por que nãos somos todos engenheiros civis então?

O Banco Mundial foi criado para ajudar os países a se recuperarem após a Segunda Guerra. Ao longo do tempo ele se converteu em um banco para financiamento de projetos de desenvolvimento em países mais pobres. Esta instituição tem suas regras para emprestar esse dinheiro, avaliando se o país que recebe esse financiamento será capaz de honrar com suas dívidas. Nada muito diferente que mostrar seu contra-cheque quando se quer financiar um carro. Pois bem, o Brasil pegou dinheiro emprestado com o Banco Mundial e portanto, tem metas a cumprir. Inclusive para poder pegar mais dinheiro.

O Banco Mundial e a UNESCO( Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) fazem parte da ONU. Por outro lado, a UNESCO trabalha em parceira com a OCDE( Organização para Cooperação Desenvolvimento Econômico). Vale chamar a atenção que não estou visualizando e nem pretendendo criar nenhuma teoria da conspiração aqui. Só estou me baseando no fato da cadeia de interesses que movem o mundo e vendo uma linha de interesses coerente e que justifica a situação atual do mercado. O secretário de transportes nem faz ideia do que é UNESCO. Mas vai fazer as estradas quando souber que tem mais engenheiros civis no mercado. O ministro da educação nem sabe quem é esse secretário, mas facilitou a vida dele abrindo vagas na engenharia porque acatou à exigência do presidente, que foi aconselhado pelo ministro das relações exteriores. Que por sua vez analisou a ideia com o ministro da fazenda que queria mais dinheiro. No final da história o mercado fica bom para este ramo da engenharia. Enfim… é uma cadeia grande e complexa, mas que possibilita um país ir para frente, não conseguir sair do lugar e até ir para trás.

A OCDE é uma reunião de 34 países, sendo que 31 deles são desenvolvidos e produzem juntos mais que 50% da riqueza do mundo. A ideia é basicamente a seguinte: Sendo eles desenvolvidos, eles se reúnem e aconselham os sub-desenvolvidos a escolherem as políticas corretas para se desenvolverem. Eles fazem relatórios sobre estes países, análises, dão conselhos e etc. Aqui no Brasil, esses dados relativos à formação de engenheiros, para análise, são fornecidos pelo INEP( Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais). De fato, é necessário que os países tenham como gerar riquezas para pagarem a dívida contraída.  A ideia é bem legal, independente da onipresente dúvida se eles realmente querem dividir esses 50% da produção de riqueza mundial com todos os homo sapiens vivos, ou se querem ensinar apenas o mínimo necessário, ou ainda se é interessante uma dívida eterna que possa ser usada para dissuasão econômica, que sempre vai ser questionada por alguém. Mas sempre vai ter cético, sempre vai ter crente, vamos continuar no foco da engenharia. O que quero chamar a atenção é a um trecho de um documento da OCDE:

“The imperative for countries is to raise higher-level employment skills, to sustain a globally competitive research base and to improve knowledge dissemination to the benefit of society” (OCDE, 2008a, p. 4).

Em livre tradução:

O necessário aos países é aumentar a qualificação profissional de nível superior, para sustentar uma base de pesquisa globalmente competitiva e melhorar a disseminação do conhecimento em benefício da sociedade

E qualificação profissional de nível superior significa tecnologia, que diferente daqui do nosso país, lá fora está muito presente na engenharia civil também. Por exemplo, cada vez mais se usa estruturas prontas em vez colocar tijolo por tijolo, com cimento e areia. Prédios que aqui se levanta em 1 ano e meio, lá fora ficam prontos em 1 mês. Mas além da civil, existem outras engenharias importantíssimas como indicativos de alta qualificação tecnológica, não por acaso são a computação, eletrônica, química, automação, nanotecnologia, nuclear, biotecnologia e etc. Portanto, a OCDE sabe que um país  só com engenheiros civis não é indicativo de evolução tecnológica.

Ou seja, o governo está fazendo sua parte. Se eles querem número de profissionais qualificados para nos dar empréstimos, nossos políticos estão gerando esses números. Pouco importa se estes profissionais estarão empregados ou não. Nossas digníssimas excelências estão lotando os cursos de engenharia, arrecadando mais dinheiro, mas mantendo o mesmo custo( número de professores e infra-estrutura). Vez ou outra pinta uma greve nas universidades federais, mas é detalhe. Professores em salas superlotadas estão reclamando de barriga cheia, é claro. Assim, a oferta nas universidades- e o marketing midiático para preencherem essas vagas –  não segue a lógica  de necessidade do mercado. Ela segue outra prioridade, que não é a razão; imagino que a essa altura do campeonato você já deve saber qual é. Se não, volta lá no início do texto. De qualquer forma…

“O Brasil precisa de engenheiros.. em todas as áreas! Engenharia química, de produção, elétrica, mecânica, automação, têxtil, de alimentos, metalúrgica e etc… Vagas a partir de R$ 18.000,00!”

Luciano Netto de Lima

Fontes:

  • 2. Por que tudo custa tão caro no Brasil? – Super Interessante, Edição Abril/2013

              Por Alexandre Versignassi e Felipe van Deursen

  • 3. Panorama da educação brasileira: aspectos para a efetivação do direito à educação para todos.

              www.revistas.ufg.br/index.php/ritref/article/download/20367/11857

             Infelizmente o relatório completo só está disponível em alemão ou por outros meios indiretos. Tanto a parte citada quanto o relatório completo estão no site abaixo:

             Site com a citação: http://www.oecd.org/edu/skills-beyond-school/tertiaryeducationfortheknowledgesocietyvolume1specialfeaturesgovernancefundingquality-volume2specialfeaturesequityinnovationlabourmarketinternationalisation.htm#3

Agradecimento à divulgação

Olá pessoal,  sinceramente não esperava essa repercussão do texto com a quantidade de leituras que deu. Eu fiz o texto esperando uns 30 compartilhamentos e alguns comentários entre amigos de turma. Tanto que inicialmente eu iria postá-lo no Linkedin, mas decidi colocar em um blog para ter como deixá-lo registrado para ler depois.  Nessas semanas, percebi que “minha turma”, na verdade, é composta por quase 120 mil pessoas, das mais diversas áreas e opiniões. Não tenho nem como agradecer os elogios e a força que o pessoal está dando enquanto lê, compartilha e comenta o texto. Como eu disse, eu não tinha planejado este blog e nem tenho experiência com essas  ferramentas, desta forma, não consegui ativar a aprovação automática de comentários. Diariamente entro no blog e aprovo todos os comentários que aparecem, eu só paro para ler depois. Desta forma, gostaria de ressaltar que não existe qualquer forma de filtragem no que vocês escrevem. Assim, após vocês comentarem, deve levar uns 12 horas até entrar em visualização pública, ok?

Como estou na reta final da faculdade, com provas, projeto final e estágio, tudo isso somado ao trânsito caótico do Rio de Janeiro, não tenho tempo para responder a todos. Mas posso garantir que venho lendo e refletindo sobre cada um deles para entender melhor esse mercado. Tenho em mente mais dois textos sobre Engenharia, que acredito, devam sair nas próximas semanas. Mas quero registrar aqui o agradecimento a todos e dizer que a opinião de vocês está sendo bastante importante para eu entender  a situação e escrever os próximos textos.

Luciano Netto de Lima

Abraços!

Entendendo a falácia da falta de engenheiros no mercado

O mercado aquecido sente falta de profissionais

As principais revistas e jornais vem anunciando incessantemente a falta de engenheiros no Brasil. Porém, para os engenheiros, desde os recém-formados aos que tem 25 anos de experiência, é um consenso que esta informação não confere no cenário nacional. Diante desta situação fica a dúvida: Que escassez é essa?

Este assunto dá margem a uma série de textos, porém vou focar no aspecto mais imediato deste desencontro entre empresas, recrutadores, profissionais e jornalistas. Basta uma pesquisa rápida na internet para encontrar as tão famigeradas vagas disponíveis para engenheiros e começar a entender a situação.

Primeiro, é preciso que as empresas entendam que um engenheiro mecânico possui a denominação profissional de engenheiro mecânico, e isso somente. Não existe qualquer referência no CREA a engenheiro mecânico com experiência em calibração de instrumentos de precisão expostos a ambiente corrosivo. Portanto, um engenheiro mecânico que trabalhou por 10 anos em calibração de instrumentos de precisão em ambientes explosivos tem total capacidade de atuar na área de ambientes corrosivos também. De forma mais direta, qualquer engenheiro mecânico será capaz de trabalhar nesta área, após o devido treinamento. É por isso que ele estudou por 5 anos, e por este mesmo motivo o preço pela sua hora de trabalho tem o valor que o CREA estipulou. Se a empresa treinou, ganhou um profissional capaz.

Pelo CREA, o piso salarial de um engenheiro é de 8 salários mínimos. Nos valores atuais( meados de 2013) equivale a R$ 5.414,00. As empresas insistem em recusar esta realidade a ponto de configurarem, a grosso modo, quase um cartel salarial. Se ninguém paga o valor pedido, ninguém vai poder exigir barganhando que outra ofereceu. Agrava-se o fato de que pouquíssimas das vagas de recém-formados abrangem este salário. Por outro lado, é ponto comum nos requisitos para vagas de engenheiros a tríade experiência anterior, inglês fluente e experiência em liderança. Sem muito esforço, é natural perceber que citar recém-formado na mesma frase que experiência anterior é no mínimo, mau gosto. Portanto, o mercado está superaquecido para profissionais com experiência, correto? Infelizmente não. Porque se é para preencher uma vaga, a preferência vai para quem tem experiência exatamente naquela área específica. Se este profissional não é encontrado, outro profissional com 15 anos de experiência em uma área ligeiramente distinta também não é uma boa escolha, pois está “velho demais para aprender truque novo”. Mas caso haja a continuidade do desejo de preencher esta vaga com este profissional experiente, a vaga continuará fazendo jus à sua definição de lugar livre, quando durante a entrevista, o engenheiro com 15 anos de experiência, inglês fluente, espírito de liderança, capacidade de lidar em equipe, domínio do pacote Office, Autocad, programação em Visual Basic e residindo próximo ao local de trabalho, se recusar a trabalhar quando souber o valor do salário.

images

Aprendendo para fazer

Existe um ponto no qual as empresas brasileiras( ou aqui situadas) insistem em contrariar os teóricos da administração mais moderna: o investimento no capital humano. Dentro das metas de corte de custos, naturalmente se poda qualquer pensamento de investimento em capacitação. Assim, é um cenário quase utópico imaginar uma empresa investindo por 1 ou 2 anos em treinamento para capacitar um profissional. Mas porque utópico? Porque nossas empresas, diante da necessidade de um profissional, consideraram mais econômico contratar o profissional da empresa em frente em vez de investir na formação do novo engenheiro. Mas como é costume se adotar a solução mais conveniente, a empresa que teve o seu profissional abduzido, aprendeu também esta manobra. Assim, como segue a escalada natural da oferta x demanda, os salários deste profissional irão aumentar até o ponto em que ninguém mais estará disposto a arcar com aquele valor. Então o que acontecerá? Passarão a contratar os recém-formados e investir em seus treinamentos? Não. Se não há engenheiro com experiência no mercado e a empresa não tem uma política pré-existente de capacitação – pela simples falta de necessidade anterior- ela irá dizer que faltam profissionais, divulgar isso nas revistas e dizer que precisam de profissionais e estes estão lá de fora. Alegando que falta mão de obra no Brasil. Mas não, não falta mão de obra aqui. Falta mão de obra treinada, lê-se, que não necessita de investimento. E esta sim, lá fora tem mais do que aqui, afinal, a Europa está em crise.

Ao conversar com uma amiga, recrutadora da área de Oléo e Gás, conversamos sobre os “altos” salários dos engenheiros e em seguida ela comentou que o principal problema é a qualificação. Ela citou o exemplo da vaga de analista de compras, que é muito difícil encontrar um engenheiro com experiência na área e inglês fluente. Particularmente, não cai bem a presença e a co-relação entre os termos fluência em inglês, experiência anterior e analista quando a vaga se destina a engenheiros. A não ser que este analista receba mais que um engenheiro júnior, o que nunca é o caso. Após sua citação, a perguntei porque eles não contratam um administrador para fazer a parte de compras. Ela me respondeu que é necessário alguém com formação técnica para esta vaga. Então esclareci para ela que “o cidadão passa 5 ou 6 anos numa faculdade de engenharia, lida com os tipos mais absurdos de professores, aprende todo o desenvolvimento da tecnologia humana até os dias atuais em sua área de atuação. Existe o CREA, existe um piso, e ESTE É O PREÇO DA FORMAÇÃO TÉCNICA.” O engenheiro é formado para aprender, desenvolver e aplicar os conhecimentos em sua área. Possui domínio das ciências bem como de suas atribuições, além da facilidade nata com números e por fim obrigatoriamente possui nível básico de inglês, porque as próprias disciplinas o exigem. Olhe bem para este profissional, agora adicione 2 anos de experiência em compras técnicas e por fim adicione mais um curso de 4 anos de inglês para ficar fluente. Qual a parte da dificuldade destes profissionais se candidatarem a uma vaga que exige o necessário para ser CEO pelo salário de um caixa de banco* não ficou clara?

O nascimento do Trainee

Não é segredo para ninguém que o nosso país passou por um período de instabilidade econômica pouco tempo atrás. Mesmo os que não eram nascidos nas época, lembram dos mais velhos contando sobre ir comprar tudo de manhã porque a tarde os preços já subiam. Como a saúde financeira e o investimento em infra-estrutura e tecnologia andam lado a lado, durante o crescimento da inflação a engenharia nacional começou a sofrer sua queda, chegando ao ápice durante a abertura do nosso mercado e a natural competição com os países estrangeiros. Assim nossa engenharia tomou um golpe violento enquanto nossos ilustres políticos não se emocionaram com a situação. Nesta época, os engenheiros se tornaram taxistas, passaram a vender suco e etc… Houve um desemprego em massa dos engenheiros, os mais bem-sucedidos foram os que conseguiram fazer seus nomes no mercado financeiro. Diante dessa realidade, a quantidade de alunos nos cursos de engenharia despencou e ninguém mais olhava nossa profissão como boa opção. Os alunos da época que não abandonaram seus cursos, optaram pela vida acadêmica como a única salvação. Os engenheiros civis foram os que menos sofreram com isso, por conta deste ramo não necessitar tanto de tecnologias e assim, não ter sofrido a competição externa. Mas sofreram o impacto pela freada econômica geral da nossa pátria também.

Mas o que isso tem a ver com os dias atuais? Tudo, porque hoje praticamente não existe engenheiro no mercado com 15 a 20 anos de experiência. Diante disso, as empresas se viram diante de um problema enorme. O que fazer agora?

Algumas passaram a tirar os aposentados da companhia dos netos com ofertas pomposas para voltarem ao trabalho, mas isso não salvou todas as empresas. Então as empresas veem uma luz no fim do túnel. Elas passam a pegar o recém-formado, investem um ano em cursos e treinamentos e outro ano em “job rotation”, os fazendo circular pelas diversas áreas da empresa. Assim, após 2 anos, as empresas agraciam estes jovens com os cargos destinados aos gerentes com 15 anos de experiência, inclusive com o salário da função de chefia. Vale ressaltar que nestes 2 anos, estes jovens não recebem o piso de engenheiro, pois estão recebendo parte deste salário em treinamento e conhecimento. Bom para as empresas e bom para os recém-formados!

No entanto, pela brasileiríssima Lei de Gérson, algumas empresas menos sérias começaram a adotar o modelo de Trainee, porém, usaram a máxima do “se aprende fazendo” e assim, consideraram desnecessários os treinamentos e colocaram o Trainee para exercer as funções de engenheiro, mas com salário de quem está aprendendo, é claro. Assim, criou-se a falácia que o engenheiro com “cheirinho de novo” é um peso morto nos primeiros anos, não gera lucro e assim, não merece o salário estipulado pelo CREA. Esse modelo de escravidão… digo… de Trainee, também passou a ser bastante conhecido no mercado pelo nome de Analista. Uma ótima forma de contratar engenheiro sem pagar o salário necessário para desfrutar da capacidade desse profissional. Outra situação comum é a exigência de inúmeras qualificações, idiomas e experiência para no cotidiano do trabalho executar atividades simples e que qualquer aluno de ensino médio seria capaz de fazer.

O que vem acontecendo

Então, um engenheiro diante disso, deveria recusar tal oferta de emprego e só aceitar cargo como engenheiro, correto? Corretíssimo… se todos os formandos em engenharia fossem solteiros, bons herdeiros e de classe média alta. Porém como essa não é a realidade, alguns se submeteram a tal situação. Estes seriam poucos e logo tudo estaria resolvido, porque isso seria em pontos isolados, correto? Novamente correto, se não fossem as revistas e jornais fazendo uma enxurrada de notícias dizendo que faltam engenheiros no país. “Engenharia é mão de obra escassa! Daremos salários de juizes para engenheiros!Engenheiro vai poder comprar sua própria ilha no Caribe!” Diante de tal situação, os cursos de engenharia lotaram, muito mais engenheiros se formaram. Mas agora caíram sem freio diante de um mercado onde a maioria das vagas são para aprender fazendo, ou seja, para Analistas ou Trainees de mentirinha. E se você é um cidadão engajado pela valorização profissional e não aceitará estas vagas, parabéns pela garra, porque tem mil se acotovelando pela vaga que você recusa.

E diante disso tudo o mercado continua: “Faltam engenheiros…”, o governo facilita a importação de profissionais, as revistas fazem matérias “comprovando” este fato, os que insistem em ficar na área em que se formaram recebem miséria enquanto se amontoam em volta de editais de concursos, e lá fora… o Brasil é o país da engenharia! As escolas de idiomas que mais viram o faturamento crescer nos últimos anos foram as de português para estrangeiros.

De toda forma, é totalmente compreensível a busca de profissionais com know-how em áreas pioneiras no país. Se determinada atividade nunca foi realizada em solo nacional, é natural que se traga o profissional do exterior. Mas esta deve ser uma prática de importação de conhecimento, não de mão de obra. O estrangeiro virá agregar e formar seus companheiros de trabalho e não substituir os engenheiros nacionais enquanto estes estão sem emprego. Porém, o que parece haver hoje é a estratégia de trazer um fast-food. Trazer os profissionais formados e prontos, que os headhunters usam como sinônimo de “qualificados”, para assumir os cargos vagos no Brasil. Então novamente impera o vício do jeitinho brasileiro, mas agora, durante o recrutamento.

*Todo respeito aos atendentes de caixa de banco. O exemplo só foi citado pela não necessidade das qualificações citadas no texto para desempenho da função.

Luciano Netto de Lima

Engenheiro de Controle e Automação pelo CEFET/RJ

Quem somos

Este blog é feito por um pequeno grupo de amigos estudantes/profissionais da área de exatas.  O objetivo é reunir aqui a interpretação, na maioria das vezes, de assuntos distintos à nossa formação segundo nossa visão mais matemática do mundo. Essa iniciativa se deu pela dificuldade natural que temos de interpretar assuntos dos campos social/humano.  Buscamos assim,  facilitar a pessoas com o mesmo perfil que o nosso a interpretar tópicos destes campos, bem como aprendermos com pessoas com formações distintas da nossa.

Nosso grupo se constitui por 4 cidadãos que enxergam o mundo segundo suas áreas de estudo( e pretendem mudar isso).  Sendo elas:

Engenharia de Controle e Automação

Engenharia Ambiental

Ciências Contábeis

Engenharia de Armamento

Para nos contactar fique a vontade para escrever para:

blogexatasmentes@gmail.com