Entendendo as cotas com física básica

 

        Recentemente em um debate de facebook, escrevi um  comentário/texto explicando como eu entendia as cotas para um público que, em sua maioria, eram estudantes de exatas. Há um tempo, durante a leitura de um texto muito interessante sobre cotas do William Douglas[1], fui montando sem querer uma analogia baseada em física. Nessa discussão, acabei usando a tal analogia e vi que ficava boa para explicar para outras pessoas. Dessa forma, melhorei e organizei a ideia para explicar para o pessoal das exatas( e também para quem não é da área) como eu julgo o sistemas de cotas. Como está na descrição do blog, eu sou um cara com mente “exata” tentando entender assuntos não tão exatos assim. Não tenho nenhum apego à vaidade para manter minhas visões de mundo e nem tenho problema algum em trocar de opinião se alguém me fornecer argumentos que eu julgue mais sólidos que o meu. Portanto, se você não concorda comigo, por favor, me faça enxergar da sua forma expondo seus pensamentos nos comentários abaixo. Ahhh claro… se é que isso faça alguma diferença, não sou negro.

 

        Antes de começar eu vou apresentar o conceito de generalização. Este é um conceito muito importante para entender certas coisas. O nome técnico disso, se quiséssemos ver aos olhos da matemática, seria distribuição gaussiana.  Imagina que estamos mapeando a altura das pessoas aqui no Brasil. Nesse gráfico abaixo, no eixo horizontal( das abcissas se preferir), você pode ver as alturas das pessoas crescendo da esquerda para a direita. No eixo vertical, vemos a porcentagem de pessoas que possuem aquela altua. Na linha pontilhada ao centro do gráfico vemos que aprox. 11% da população tem 1,65 de altura.

 

 

        Você consegue perceber que o gráfico faz um desenho como se fosse um quebra-molas, ou lombada, conforme seja chamado na sua região? Esse desenho é percebido na maioria dos casos, pois em geral, a maior quantidade de observações se situa no meio do gráfico. Funciona assim com a altura das pessoas, com os números de sapato, com a velocidade dos carros na rua,  com a temperatura que as pessoas julgam ideal no ar condicionado e etc…  Por conta disso, se formos projetar o espaço interno de um carro, vamos considerar qual tamanho para usar como padrão nos bancos? Você concorda comigo que seria o tamanho médio, o tamanho da maioria das pessoas? Obviamente, haverá alguém que é menor que o espaço do projeto, e alguém que é mais alto e poderá ficar desconfortável. Mas se é necessário projetar um banco genérico usa-se a característica da maioria das pessoas como parâmetro. O nome disso é generalização. Por isso, as políticas, as considerações para estimativas socias e etc. são baseadas na maioria dos casos. Não vale trazermos para uma discussão de qual carro corre mais o caso de um fusca turbinado que corria mais que um carro de fórmula 1 batido e com isso defender que os fuscas correm mais que carros de fórmula 1. Casos isolados não servem como exemplo geral, lembre bem disso.

 

Todos nascem iguais…

    
         Primeiro de tudo, vamos montar o cenário incial do nosso problema, pois é assim que começa toda questão física. Os corpos são esferas, não há atrito, o fio é inextensível e etc. Como nessa discussão estamos dissertando sobre cotas para negros no Brasil vamos considerar que no início, em 1500, existiam apenas brancos e negros. Nesta situação, todos nascem iguais, com os mesmos direitos, mesmos deveres, assim como teoricamente funciona hoje. Você pode nascer pobre batalhar e morrer rico e pode nascer rico falir e morrer pobre. Muitos diriam que essa é a sociedade atual, hoje em 2015. Seria sim… se não houvesse um fator importantíssimo que afeta tudo isso…

 

Hereditariedade

 

   
         Nossa própria lei garante que o filho herda os bens dos pais. Portanto, por mais que seja possível o Sílvio Santos nascer pobre e ficar riquíssimo como fruto do trabalho, é incomparavelmente mais fácil para o filho de uma família rica desfrutar das oportunidades trazidas pelo dinheiro do que foi para o homem do baú. Ainda que nossa lei não permitisse hereditariedade, só o fato de viver em uma família que possui grana facilita bastante o preparo da criança para conseguir uma posição que a faça manter e aumentar sua riqueza. Não estou especulando filosoficamente aqui, estamos falando dos cursos de inglês, francês, das viagens para fora, do intercâmbio, dos professores particulares, coisas bem óbvias. Tem também as coisas mais sutis e nem por isso menos consideráveis: ter um pai que lhe explique como funciona o vestibular, como a carreira dele o fez ter a boa condição que ele lhe fornece, fale da importância de falar 1 ou 2 idiomas e etc. O garoto que está vendendo bala no sinal não sabe o que é um vestibular, não sabe o que um administrador ou economista faz. As profissões que ele conhece são engraxate, professor, empregada, policial e no máximo assistente social. Novamente, não são devaneios utópicos aqui. Você sabe o que é um analista de compliance? E um engenheiro de lançamento de linha? Não, não é? É porque isso está fora do teu contexto. A diferença é que o contexto do garoto da bala é bem mais restrito que o meu, que o seu. Portanto, esse garoto nem sabe o que são cotas, na verdade ele não sabe o que é vestibular, ele te assalta na porta da UERJ mas só sabe que o pessoal estuda alguma coisa lá dentro. Ainda temos aquele problema do silêncio na biblioteca. Tirando um ou outro que estuda com fones de ouvido, em geral o silêncio é necessário para a concentração, ter as horas de estudo interrompida vez ou outra por tiroteios não ajuda muito. Ainda que não haja tiroteio, mas morar em um cômodo só, tentando estudar enquanto sua mãe assiste TV, seu irmão chora e o vizinho do lado ouve rádio alto geralmente não facilita a absorção da matéria. Por outro lado, ter seu próprio quarto, seus professores particulares, livros novos me faz suspeitar que torne o aprendizado mas efetivo.

 

         Então, voltando à física… Se teoricamente no t=0( ano 1500), no início, todo mundo nasce igual, sem ter nada. Existe hereditariedade, ou seja, é muuuuuuuito mais fácil ter grana se ela vem do seu pai. Então, pega determinado grupo com mais melanina na pele, escraviza por quase 400 anos a partir do t=0. Passado esse tempo fala assim: “Agora vocês estão livres! Abraço meu querido. É todo mundo igual”. Se não houvesse hereditariedade estaria tranquilo. E ela não diz apenas que você terá grana, mas vai ter estudo, vai ter informação. Enfim… se não fosse esse fator, o problema estaria resolvido. Mas como ele existe, o mundo acaba não sendo tão simples como “todos nascem iguais a partir de agora”. Caso ainda haja alguma dúvida sobre a igualdade nos nascimentos, de forma no mínimo irônica, lhe proponho que explique isso para os pais da criança que morreu por atraso no atendimento na UPA e também para aqueles cujo filho nasceu no Barra D’or.

         Trocando em miúdos de forma Newtoniana… Você consegue entender que se no t=0 tem dois carrinhos no s=0( na posição do início da corrida). Então você segura um carro por 400 segundos e deixa o outro andando em velocidade constante. Depois desses 400 segundos você solta o carrinho que tava parado na mesma velocidade que o outro. Você acha mesmo que em algum momento esses carrinhos vão estar lado a lado? Se você acha… proponho que feche essa página e abra um livro de física. Uma forma de resolver isso é acelerar um pouco o carrinho retardatário por um tempo e então desacelerar quando ele se aproximar do outro. O nome da aceleração, caro leitor, é cotas.

 

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“Mas as cotas são paleativo.. porque tem que consertar a educação de base!”

 

        Uma vez vi um texto que dizia que um dos principais problemas dos brasileiros é nunca resolver um problema porque sempre tem outro que se julga mais importante[2]. E de fato é isso aí…. Vamos ser realistas, NÃO IRÃO CONSERTAR a educação de base. Ponto. Você conhece tanto os políticos daqui quanto eu. Do jeito que anda, a coisa não será consertada. Portanto, ou faz cotas ou não faz nada. Condicionar a cota( que é uma política palpável, tangível, acessível) à realização de uma reforma sueca na educação brasileira( que é, pelo menos agora, impossível) é ingenuidade, quando não é falta de visão ou no pior dos casos, estratégia de anulação. Enfim, ou você dá as cotas para “reparar” a discrepância cronológica da galera… ou exige que cada negro brasileiro seja um Silvio Santos, porque teoricamente o mundo é justo e hereditariedade é um conceito que se resume exclusivamente à genética.

Agora eu te pergunto: Você é o melhor em tudo que você pode ser hoje? Você se esforçou pegando livros no lixo e estudando nos bancos de praça? Não? Então porque o garoto de rua tem que fazer isso para chegar no mesmo lugar que você está?

        Por isso, não vale usar o caso do zezinho que lutou muito e venceu na vida. Obviamente não tem como atingir uma igualdade absoluta, nem numa tribo é assim. Mas não é por isso que vamos cruzar os braços e deixar por isso mesmo quando existe uma desigualdade tão óbvia na nossa frente. O conceito de igualdade é complicado, confesso que não sei muito bem como definir. Mas vamos pensar o seguinte: Se igualdade é fornecer exatamente a mesma coisa para todo mundo, eu posso fornecer escadas na entrada de um prédio para cadeirantes porque colocar rampas é tratá-los diferente? De fato ele não tem necessidades diferentes? Como o William Douglas disse no seu texto, as cotas raciais não seriam como cotas para deficientes econômicos?

“E por que as cotas são para os negros e não para os pobres? Pois existem vários brancos pobres também!” O nome disso é cotas para estudantes de escolas públicas. Em geral, assume-se que se não houve como o estudante arcar os custos de uma educação particular, ele se encaixa na classe de pobre. “Isso é assumir a falência da educação pública de nível fundamental e médio!” É sim… eu também enxergo assim. Mas novamente, se condicionar cotas à reorganização da educação nacional, não haverá nada.

 Mas se na Constituição todo mundo é igual, por que os negros tem essas vantagens?
   
        O problema é que a Constituição de hoje foi feita em 1988, mas a sociedade ainda tem reflexos da escravidão que acabou em 1888. Nós que gostamos de números…. um século não foi suficiente para suprimir a cultura, piadas, apelidos, olhar feio e etc…  Sociologia não é ciência exata, portanto, não é recomendado olhar as coisas como equação. Existem nuances e detalhes que não são óbvios como uma linha de código. A partir do momento que a princesa Isabel assinou a Lei Áurea o mundo não passou magicamente a olhar os negros de igual para igual. Tanto é que até hoje você encontra pessoas preconceituosas por aí. Se o resultado do preconceito fosse só desconforto, ainda que errado, seria de certa forma( estou falando isso com muito cuidado…) relevável. O problema é que a falta de oportunidades pode expor à criminalidade, por exemplo. Quando essa falta de oportunidades atinge especificamente uma parcela limitada da população, por questões históricas, há um grave problema aí. Se tem gente que até hoje acredita que comer manga com leite mata, história que tem origem na época da escravidão, porque não teria quem ainda acredita em preconceito?

 

Mas as cotas vão oferecer vantagens injustas para os negros no futuro!
    
         Por isso que as cotas devem ser temporárias. Quando os cotistas de agora conseguirem se estabelecer num emprego bom, botarem as crianças nas escolas particulares, corta-se o cordão umbilical. Assim eu penso, o que os políticos pensam eu não sei. Mas ainda que eles pensem diferente, é só trocar os políticos depois. O ganho que as cotas trazem é muito mais importante do que um medo baseado na previsão de uma década à frente. Não vejo como esse medo se posicionar como prioridade nesse contexto. Portanto, a ideia é fazer o carrinho que estava parado alcançar o outro e deixá-los andando lado a lado, lembra? A física explica.

 

 

 

Luciano Netto de Lima