Por que a engenharia no Brasil é assim?

A origem de tudo…

Muitas vezes eu me pergunto o porquê da engenharia no Brasil não dar tão certo se afirmam que a engenharia aquece com o desenvolvimento e dizem por aí que em pouco tempo seremos a terceira maior economia do mundo. Então, conversando com professores, colegas de trabalho, profissionais e lendo notícias cheguei ao entendimento que vou expor no texto. Como disse, sou da área de engenharia, não sou sociólogo, posso estar errado, mas quero compartilhar como entendi isso. O que acho que evoluiu bastante desde que eu comecei a me fazer esta pergunta.

Não é preciso mais de uma frase para concordamos com a seguinte afirmação: No Brasil, a política precede à razão.
E nós, infelizmente, escolhemos a segunda prioridade dessa frase. Portanto, será muito natural se ao longo da colheita de nossos frutos da engenharia, nos sentirmos frustrados por termos feito a escolha errada. Vamos entender melhor isso tudo…

Quando escrevi o primeiro texto – Entendendo a falácia da  falta de engenheiros no mercado – já esperava que alguns colegas da engenharia civil me desmentissem e contassem que na verdade, a engenharia está bombando. A engenharia civil, como diz um amigo da área, foi a mãe das engenharias. Na verdade, inicialmente existiam dois ramos somente: a engenharia militar, para aplicações bélicas naturalmente, e para outras aplicações, a engenharia civil. Dentro desta se englobavam todas as áreas não militares. Com o passar do tempo a civil foi se ramificando tanto que foi necessário especificar outros termos mais específicos como mecânica, elétrica e etc. A engenharia de construção, por ter sido a mãe de todas as outras, herdou sua denominação primordial. Assim, hoje temos o termo engenharia civil como sinônimo de construção. Portanto, tenho o maior respeito e consideração pela área, e até pretendo cursá-la no futuro por admiração. E assim, peço aos meus futuros colegas de curso que entendam a afirmação/constatação que farei a seguir, sem preconceito: A engenharia civil, no Brasil atual, não depende de desenvolvimento de tecnologia.

Isso influencia e muito no porquê desta ser a única engenharia que dá certo nos nossos solos. A nossa engenharia civil não sofre concorrência porque nossos governantes não a permitem. Existem dois motivos para o sucesso dessa engenharia aqui: O primeiro já foi falado, a falta de tecnologia. O segundo motivo, é o fato da sua forma de execução e isso, também decorre da falta de desenvolvimento tecnológico.

Fica uma ressalva para a área de petróleo e gás, pois é uma herança de um investimento antigo de Vargas.  Ou seja, não é preciso investir durante o período sem retorno, pois hoje a Petrobras já dá lucro. Assim, ela pode investir em pesquisa visando aumentar os rendimentos. Sem contar o fato de ser capital misto, o que não permite interferência direta da baixa política. Pelo menos é o que se tem tentando fazer lá dentro, apesar de algumas matérias recentes acusando a interferência partidária  nos rumos da companhia. ¹

A engenharia quaternária

A engenharia da computação, por exemplo, se quiser fazer diferença no mercado precisará desenvolver chips novos, ou inovar em tecnologia dos semicondutores, talvez até comece pesquisas em computação quântica. Quanto tempo isso dura? Coloque aí uns 10 anos para ter a primeira patente gerando lucro. Mais 5 desenvolvendo o produto, para depois criar as empresas de venda de tais produtos. Enfim, 15 anos para começar a ser rentável. Lembra sobre a política e a razão? Pois é… um político eleito, nunca poderá inaugurar a fábrica de superprocessadores nacionais a tempo de se reeleger. Quinze anos é muita coisa, além do investimento em educação e qualificação ser necessário e nem precisar tanto de investimento pesado inicial, o que também não agrada nossos representantes do povo.

A função da engenharia é criar soluções praticáveis baseadas no conhecimentos das ciências, aplicá-las, é consequência. Não que não seja importante aplicá-las, senão seria pesquisa pura, teórica; mas a função principal da engenharia é solucionar coisas que até o momento não tinham respostas. O físico estuda toda a natureza, entende as leis de Newton, entende a relação entre polias e etc. Sendo que ele usou das equações que são estudadas pelos matemáticos. O engenheiro, estuda um pouco de física, um pouco de matemática, estuda como montar engrenagens, qual motor usar e então resolve os problemas da sociedade. Seja otimizando a produção de petróleo ou garantindo a qualidade das bebidas em uma cervejaria.

A base de qualquer tecnologia é a inovação, é a corrida. Tanto é, que os maiores desenvolvimentos científicos ocorrem durante as corridas espaciais, as guerras, quando a tecnologia significa a diferença entre a vida e a morte.

No Brasil, a engenharia tem 4 características interessantíssimas para um candidato, veja bem… No tempo de mandato de um governador, por exemplo, 4 anos, a engenharia civil não ficará obsoleta pela tecnologia. Portanto, é só aplicar o que já se conhece, não precisa investimento de longo prazo. Qualquer obra pode ser realizada em 4 anos. Pelo menos é o como acontece no Brasil, vez ou outra um buraco de metrô ou prédio desaba, mas no geral 4 anos é suficiente para inaugurar, pelo menos é o que vemos nos jornais. Ainda tem outro fator, segundo a ISO 9001, o desvio de verba pública não pode ultrapassar 50% do investimento. Como qualquer retoque em um estádio custa cifras de bilhões de reais, a taxa de retorno imediato do “investimento” para um político mal-intencionado é muito mais atrativo que descobrir a cura com células tronco. A pesquisa de ponta em tecnologia precisa de um capital inicial baixo para só no meio investir pesado. Nada que seja possível fazer em 4 anos. E no final, o resultado é bastante evidente quando se tem uma nova ponte e algumas fotos já mostram as realizações feitas. Assim, olha bem o que a engenharia civil pode oferecer ao mau político: alto desvio de dinheiro, curto prazo, baixo risco, impacto visual e ainda uma reeleição. Ou você acha que o que faz os maus candidatos mendigarem seus votos são os salários que recebem? Por que temos tantos empresários se candidatando para receberem menos que um gerente de suas próprias empresas? Porque o desvio com um obra pública rende 10 vezes mais o que ele ganha em 1 ano com a empresa. Os altos salários que eles tem é apenas porque eles se sentiram na obrigação de roubar um pouco mais já que a população insistia em não fazer nada mesmo… as pessoas iriam até falar que eles não trabalham se não criassem essas leis aumento os próprios salários. Mas vamos parar de falar de política porque esse não foi o propósito do texto. Porém, foi necessário explicar este ponto: o interessante para um corrupto é desviar a imensidão de dinheiro arrecadada. Mas como se arrecada mesmo? Ahh claro… impostos.

Quanto mais imposto…. mais desvio. Sempre seguindo a ISO 9001!

Nos comentários do texto anterior, citaram algo que eu esqueci de abordar: O custo de manter uma empresa no país. Temos algumas curiosidades aqui, como por exemplo: a empresa deve pagar o INSS, para o funcionário ter direito ao atendimento médico, mas precisa pagar um plano de saúde também, para o funcionário ter atendimento médico. O empresário, possui um carro, e portanto, paga o IPVA para ser usado para manutenção das vias, mas também tem que pagar o vale-transporte do funcionário, porque a passagem é cara, pois o funcionário paga a barca porque não pode usar a ponte engarrafada e tem que chegar cedo. A empresa paga a previdência social, mas também contribui com uma porcentagem para pagar a previdência, mas privada. A empresa paga imposto para a polícia defender seus bens, mas precisa pagar uma empresa de segurança para defender, os seus bens.

No Brasil, se gasta 4 meses do ano para resolver toda a papelada de recolhimento de imposto. Nos outros países, a média é de uma semana. No Brasil, a energia elétrica custa o dobro do valor de outros países. No Brasil, todo o transporte, de pessoas e carga, é realizado por rodovias. Em todo mundo não se usa essa alternativa porque sabe-se que é mais cara. Pelas rodovias se gasta muito com 2 itens: a primeira é a manutenção automotiva, e a segunda, curiosamente estimula a primeira, a manutenção das rodovias. Elas custam caro porque são obras, mas lembre que as licitações suspeitas resultam na engenharia civi… ahh deixa para lá. ³

Portanto, o gasto duplicado dos serviços básicos – imposto e uso de uma empresa privada – é outro fato que dificulta que aquele motor usado na indústria, seja desenvolvido aqui em solo nacional, por engenheiros mecânicos, elétricos e químicos brasileiros. Por um preço mais barato e bem mais adaptado às nossas necessidades.

Fazer aqui demora mais que trazer de lá…

Para construir uma fábrica aqui o primeiro item é infra-estrutura e aqui que o brasil peca e muito. Nossa energia é cara, nossa logística é sofrível pois é baseada em rodovias, os impostos e os custos secundários com a mão-de-obra( transporte, alimentação e etc…) são caríssimos pela própria realidade de preços surreais do país e por final, a política não é lá muito estratégica e bem estruturada. Não é incomum a prevalência de apadrinhamentos políticos em vez de redução de custos ou inteligência estratégica quando as iniciativas tem qualquer distante relação com a mão do governo. Sem contar por toda burocracia de prestação de contas das empresas, atrasos no trâmite de documentos e etc. Outro ponto que também conta é a vantagem da aglomeração industrial, ou desvantagem, se pensarmos dentro daqui. Se não há uma boa indústria de parafusos porque preferiram construir mais uma rodovia, como vou instalar uma fábrica de motores? E sem motores, como farei automóveis? Por isso temos montadoras de automóveis e não fábricas. Para fechar com chave de ouro, importação aqui é taxado em quase 60% de imposto, mesmo em produtos sem equivalência nacional. Sendo assim, e ainda lembrando que não é possível fundar empresas e gerar lucro em 4 anos e ainda que o imposto é pago à vista, fica fácil perceber porque importar é a melhor opção e a mais famosa escolha tomada. Assim, paga-se imposto para forçar a empresa a se nacionalizar, mas impede-se sua nacionalização por todas as outras frentes de atuação. No final, nós pagamos 5 vezes o valor pelos produtos sem nenhuma perspectiva de mudar isso.

Por que nãos somos todos engenheiros civis então?

O Banco Mundial foi criado para ajudar os países a se recuperarem após a Segunda Guerra. Ao longo do tempo ele se converteu em um banco para financiamento de projetos de desenvolvimento em países mais pobres. Esta instituição tem suas regras para emprestar esse dinheiro, avaliando se o país que recebe esse financiamento será capaz de honrar com suas dívidas. Nada muito diferente que mostrar seu contra-cheque quando se quer financiar um carro. Pois bem, o Brasil pegou dinheiro emprestado com o Banco Mundial e portanto, tem metas a cumprir. Inclusive para poder pegar mais dinheiro.

O Banco Mundial e a UNESCO( Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) fazem parte da ONU. Por outro lado, a UNESCO trabalha em parceira com a OCDE( Organização para Cooperação Desenvolvimento Econômico). Vale chamar a atenção que não estou visualizando e nem pretendendo criar nenhuma teoria da conspiração aqui. Só estou me baseando no fato da cadeia de interesses que movem o mundo e vendo uma linha de interesses coerente e que justifica a situação atual do mercado. O secretário de transportes nem faz ideia do que é UNESCO. Mas vai fazer as estradas quando souber que tem mais engenheiros civis no mercado. O ministro da educação nem sabe quem é esse secretário, mas facilitou a vida dele abrindo vagas na engenharia porque acatou à exigência do presidente, que foi aconselhado pelo ministro das relações exteriores. Que por sua vez analisou a ideia com o ministro da fazenda que queria mais dinheiro. No final da história o mercado fica bom para este ramo da engenharia. Enfim… é uma cadeia grande e complexa, mas que possibilita um país ir para frente, não conseguir sair do lugar e até ir para trás.

A OCDE é uma reunião de 34 países, sendo que 31 deles são desenvolvidos e produzem juntos mais que 50% da riqueza do mundo. A ideia é basicamente a seguinte: Sendo eles desenvolvidos, eles se reúnem e aconselham os sub-desenvolvidos a escolherem as políticas corretas para se desenvolverem. Eles fazem relatórios sobre estes países, análises, dão conselhos e etc. Aqui no Brasil, esses dados relativos à formação de engenheiros, para análise, são fornecidos pelo INEP( Instituto Nacional de Pesquisas e Estudos Educacionais). De fato, é necessário que os países tenham como gerar riquezas para pagarem a dívida contraída.  A ideia é bem legal, independente da onipresente dúvida se eles realmente querem dividir esses 50% da produção de riqueza mundial com todos os homo sapiens vivos, ou se querem ensinar apenas o mínimo necessário, ou ainda se é interessante uma dívida eterna que possa ser usada para dissuasão econômica, que sempre vai ser questionada por alguém. Mas sempre vai ter cético, sempre vai ter crente, vamos continuar no foco da engenharia. O que quero chamar a atenção é a um trecho de um documento da OCDE:

“The imperative for countries is to raise higher-level employment skills, to sustain a globally competitive research base and to improve knowledge dissemination to the benefit of society” (OCDE, 2008a, p. 4).

Em livre tradução:

O necessário aos países é aumentar a qualificação profissional de nível superior, para sustentar uma base de pesquisa globalmente competitiva e melhorar a disseminação do conhecimento em benefício da sociedade

E qualificação profissional de nível superior significa tecnologia, que diferente daqui do nosso país, lá fora está muito presente na engenharia civil também. Por exemplo, cada vez mais se usa estruturas prontas em vez colocar tijolo por tijolo, com cimento e areia. Prédios que aqui se levanta em 1 ano e meio, lá fora ficam prontos em 1 mês. Mas além da civil, existem outras engenharias importantíssimas como indicativos de alta qualificação tecnológica, não por acaso são a computação, eletrônica, química, automação, nanotecnologia, nuclear, biotecnologia e etc. Portanto, a OCDE sabe que um país  só com engenheiros civis não é indicativo de evolução tecnológica.

Ou seja, o governo está fazendo sua parte. Se eles querem número de profissionais qualificados para nos dar empréstimos, nossos políticos estão gerando esses números. Pouco importa se estes profissionais estarão empregados ou não. Nossas digníssimas excelências estão lotando os cursos de engenharia, arrecadando mais dinheiro, mas mantendo o mesmo custo( número de professores e infra-estrutura). Vez ou outra pinta uma greve nas universidades federais, mas é detalhe. Professores em salas superlotadas estão reclamando de barriga cheia, é claro. Assim, a oferta nas universidades- e o marketing midiático para preencherem essas vagas –  não segue a lógica  de necessidade do mercado. Ela segue outra prioridade, que não é a razão; imagino que a essa altura do campeonato você já deve saber qual é. Se não, volta lá no início do texto. De qualquer forma…

“O Brasil precisa de engenheiros.. em todas as áreas! Engenharia química, de produção, elétrica, mecânica, automação, têxtil, de alimentos, metalúrgica e etc… Vagas a partir de R$ 18.000,00!”

Luciano Netto de Lima

Fontes:

  • 2. Por que tudo custa tão caro no Brasil? – Super Interessante, Edição Abril/2013

              Por Alexandre Versignassi e Felipe van Deursen

  • 3. Panorama da educação brasileira: aspectos para a efetivação do direito à educação para todos.

              www.revistas.ufg.br/index.php/ritref/article/download/20367/11857

             Infelizmente o relatório completo só está disponível em alemão ou por outros meios indiretos. Tanto a parte citada quanto o relatório completo estão no site abaixo:

             Site com a citação: http://www.oecd.org/edu/skills-beyond-school/tertiaryeducationfortheknowledgesocietyvolume1specialfeaturesgovernancefundingquality-volume2specialfeaturesequityinnovationlabourmarketinternationalisation.htm#3

Entendendo a falácia da falta de engenheiros no mercado

O mercado aquecido sente falta de profissionais

As principais revistas e jornais vem anunciando incessantemente a falta de engenheiros no Brasil. Porém, para os engenheiros, desde os recém-formados aos que tem 25 anos de experiência, é um consenso que esta informação não confere no cenário nacional. Diante desta situação fica a dúvida: Que escassez é essa?

Este assunto dá margem a uma série de textos, porém vou focar no aspecto mais imediato deste desencontro entre empresas, recrutadores, profissionais e jornalistas. Basta uma pesquisa rápida na internet para encontrar as tão famigeradas vagas disponíveis para engenheiros e começar a entender a situação.

Primeiro, é preciso que as empresas entendam que um engenheiro mecânico possui a denominação profissional de engenheiro mecânico, e isso somente. Não existe qualquer referência no CREA a engenheiro mecânico com experiência em calibração de instrumentos de precisão expostos a ambiente corrosivo. Portanto, um engenheiro mecânico que trabalhou por 10 anos em calibração de instrumentos de precisão em ambientes explosivos tem total capacidade de atuar na área de ambientes corrosivos também. De forma mais direta, qualquer engenheiro mecânico será capaz de trabalhar nesta área, após o devido treinamento. É por isso que ele estudou por 5 anos, e por este mesmo motivo o preço pela sua hora de trabalho tem o valor que o CREA estipulou. Se a empresa treinou, ganhou um profissional capaz.

Pelo CREA, o piso salarial de um engenheiro é de 8 salários mínimos. Nos valores atuais( meados de 2013) equivale a R$ 5.414,00. As empresas insistem em recusar esta realidade a ponto de configurarem, a grosso modo, quase um cartel salarial. Se ninguém paga o valor pedido, ninguém vai poder exigir barganhando que outra ofereceu. Agrava-se o fato de que pouquíssimas das vagas de recém-formados abrangem este salário. Por outro lado, é ponto comum nos requisitos para vagas de engenheiros a tríade experiência anterior, inglês fluente e experiência em liderança. Sem muito esforço, é natural perceber que citar recém-formado na mesma frase que experiência anterior é no mínimo, mau gosto. Portanto, o mercado está superaquecido para profissionais com experiência, correto? Infelizmente não. Porque se é para preencher uma vaga, a preferência vai para quem tem experiência exatamente naquela área específica. Se este profissional não é encontrado, outro profissional com 15 anos de experiência em uma área ligeiramente distinta também não é uma boa escolha, pois está “velho demais para aprender truque novo”. Mas caso haja a continuidade do desejo de preencher esta vaga com este profissional experiente, a vaga continuará fazendo jus à sua definição de lugar livre, quando durante a entrevista, o engenheiro com 15 anos de experiência, inglês fluente, espírito de liderança, capacidade de lidar em equipe, domínio do pacote Office, Autocad, programação em Visual Basic e residindo próximo ao local de trabalho, se recusar a trabalhar quando souber o valor do salário.

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Aprendendo para fazer

Existe um ponto no qual as empresas brasileiras( ou aqui situadas) insistem em contrariar os teóricos da administração mais moderna: o investimento no capital humano. Dentro das metas de corte de custos, naturalmente se poda qualquer pensamento de investimento em capacitação. Assim, é um cenário quase utópico imaginar uma empresa investindo por 1 ou 2 anos em treinamento para capacitar um profissional. Mas porque utópico? Porque nossas empresas, diante da necessidade de um profissional, consideraram mais econômico contratar o profissional da empresa em frente em vez de investir na formação do novo engenheiro. Mas como é costume se adotar a solução mais conveniente, a empresa que teve o seu profissional abduzido, aprendeu também esta manobra. Assim, como segue a escalada natural da oferta x demanda, os salários deste profissional irão aumentar até o ponto em que ninguém mais estará disposto a arcar com aquele valor. Então o que acontecerá? Passarão a contratar os recém-formados e investir em seus treinamentos? Não. Se não há engenheiro com experiência no mercado e a empresa não tem uma política pré-existente de capacitação – pela simples falta de necessidade anterior- ela irá dizer que faltam profissionais, divulgar isso nas revistas e dizer que precisam de profissionais e estes estão lá de fora. Alegando que falta mão de obra no Brasil. Mas não, não falta mão de obra aqui. Falta mão de obra treinada, lê-se, que não necessita de investimento. E esta sim, lá fora tem mais do que aqui, afinal, a Europa está em crise.

Ao conversar com uma amiga, recrutadora da área de Oléo e Gás, conversamos sobre os “altos” salários dos engenheiros e em seguida ela comentou que o principal problema é a qualificação. Ela citou o exemplo da vaga de analista de compras, que é muito difícil encontrar um engenheiro com experiência na área e inglês fluente. Particularmente, não cai bem a presença e a co-relação entre os termos fluência em inglês, experiência anterior e analista quando a vaga se destina a engenheiros. A não ser que este analista receba mais que um engenheiro júnior, o que nunca é o caso. Após sua citação, a perguntei porque eles não contratam um administrador para fazer a parte de compras. Ela me respondeu que é necessário alguém com formação técnica para esta vaga. Então esclareci para ela que “o cidadão passa 5 ou 6 anos numa faculdade de engenharia, lida com os tipos mais absurdos de professores, aprende todo o desenvolvimento da tecnologia humana até os dias atuais em sua área de atuação. Existe o CREA, existe um piso, e ESTE É O PREÇO DA FORMAÇÃO TÉCNICA.” O engenheiro é formado para aprender, desenvolver e aplicar os conhecimentos em sua área. Possui domínio das ciências bem como de suas atribuições, além da facilidade nata com números e por fim obrigatoriamente possui nível básico de inglês, porque as próprias disciplinas o exigem. Olhe bem para este profissional, agora adicione 2 anos de experiência em compras técnicas e por fim adicione mais um curso de 4 anos de inglês para ficar fluente. Qual a parte da dificuldade destes profissionais se candidatarem a uma vaga que exige o necessário para ser CEO pelo salário de um caixa de banco* não ficou clara?

O nascimento do Trainee

Não é segredo para ninguém que o nosso país passou por um período de instabilidade econômica pouco tempo atrás. Mesmo os que não eram nascidos nas época, lembram dos mais velhos contando sobre ir comprar tudo de manhã porque a tarde os preços já subiam. Como a saúde financeira e o investimento em infra-estrutura e tecnologia andam lado a lado, durante o crescimento da inflação a engenharia nacional começou a sofrer sua queda, chegando ao ápice durante a abertura do nosso mercado e a natural competição com os países estrangeiros. Assim nossa engenharia tomou um golpe violento enquanto nossos ilustres políticos não se emocionaram com a situação. Nesta época, os engenheiros se tornaram taxistas, passaram a vender suco e etc… Houve um desemprego em massa dos engenheiros, os mais bem-sucedidos foram os que conseguiram fazer seus nomes no mercado financeiro. Diante dessa realidade, a quantidade de alunos nos cursos de engenharia despencou e ninguém mais olhava nossa profissão como boa opção. Os alunos da época que não abandonaram seus cursos, optaram pela vida acadêmica como a única salvação. Os engenheiros civis foram os que menos sofreram com isso, por conta deste ramo não necessitar tanto de tecnologias e assim, não ter sofrido a competição externa. Mas sofreram o impacto pela freada econômica geral da nossa pátria também.

Mas o que isso tem a ver com os dias atuais? Tudo, porque hoje praticamente não existe engenheiro no mercado com 15 a 20 anos de experiência. Diante disso, as empresas se viram diante de um problema enorme. O que fazer agora?

Algumas passaram a tirar os aposentados da companhia dos netos com ofertas pomposas para voltarem ao trabalho, mas isso não salvou todas as empresas. Então as empresas veem uma luz no fim do túnel. Elas passam a pegar o recém-formado, investem um ano em cursos e treinamentos e outro ano em “job rotation”, os fazendo circular pelas diversas áreas da empresa. Assim, após 2 anos, as empresas agraciam estes jovens com os cargos destinados aos gerentes com 15 anos de experiência, inclusive com o salário da função de chefia. Vale ressaltar que nestes 2 anos, estes jovens não recebem o piso de engenheiro, pois estão recebendo parte deste salário em treinamento e conhecimento. Bom para as empresas e bom para os recém-formados!

No entanto, pela brasileiríssima Lei de Gérson, algumas empresas menos sérias começaram a adotar o modelo de Trainee, porém, usaram a máxima do “se aprende fazendo” e assim, consideraram desnecessários os treinamentos e colocaram o Trainee para exercer as funções de engenheiro, mas com salário de quem está aprendendo, é claro. Assim, criou-se a falácia que o engenheiro com “cheirinho de novo” é um peso morto nos primeiros anos, não gera lucro e assim, não merece o salário estipulado pelo CREA. Esse modelo de escravidão… digo… de Trainee, também passou a ser bastante conhecido no mercado pelo nome de Analista. Uma ótima forma de contratar engenheiro sem pagar o salário necessário para desfrutar da capacidade desse profissional. Outra situação comum é a exigência de inúmeras qualificações, idiomas e experiência para no cotidiano do trabalho executar atividades simples e que qualquer aluno de ensino médio seria capaz de fazer.

O que vem acontecendo

Então, um engenheiro diante disso, deveria recusar tal oferta de emprego e só aceitar cargo como engenheiro, correto? Corretíssimo… se todos os formandos em engenharia fossem solteiros, bons herdeiros e de classe média alta. Porém como essa não é a realidade, alguns se submeteram a tal situação. Estes seriam poucos e logo tudo estaria resolvido, porque isso seria em pontos isolados, correto? Novamente correto, se não fossem as revistas e jornais fazendo uma enxurrada de notícias dizendo que faltam engenheiros no país. “Engenharia é mão de obra escassa! Daremos salários de juizes para engenheiros!Engenheiro vai poder comprar sua própria ilha no Caribe!” Diante de tal situação, os cursos de engenharia lotaram, muito mais engenheiros se formaram. Mas agora caíram sem freio diante de um mercado onde a maioria das vagas são para aprender fazendo, ou seja, para Analistas ou Trainees de mentirinha. E se você é um cidadão engajado pela valorização profissional e não aceitará estas vagas, parabéns pela garra, porque tem mil se acotovelando pela vaga que você recusa.

E diante disso tudo o mercado continua: “Faltam engenheiros…”, o governo facilita a importação de profissionais, as revistas fazem matérias “comprovando” este fato, os que insistem em ficar na área em que se formaram recebem miséria enquanto se amontoam em volta de editais de concursos, e lá fora… o Brasil é o país da engenharia! As escolas de idiomas que mais viram o faturamento crescer nos últimos anos foram as de português para estrangeiros.

De toda forma, é totalmente compreensível a busca de profissionais com know-how em áreas pioneiras no país. Se determinada atividade nunca foi realizada em solo nacional, é natural que se traga o profissional do exterior. Mas esta deve ser uma prática de importação de conhecimento, não de mão de obra. O estrangeiro virá agregar e formar seus companheiros de trabalho e não substituir os engenheiros nacionais enquanto estes estão sem emprego. Porém, o que parece haver hoje é a estratégia de trazer um fast-food. Trazer os profissionais formados e prontos, que os headhunters usam como sinônimo de “qualificados”, para assumir os cargos vagos no Brasil. Então novamente impera o vício do jeitinho brasileiro, mas agora, durante o recrutamento.

*Todo respeito aos atendentes de caixa de banco. O exemplo só foi citado pela não necessidade das qualificações citadas no texto para desempenho da função.

Luciano Netto de Lima

Engenheiro de Controle e Automação pelo CEFET/RJ